amor

eu entendo, ela disse. entendo, repetiu. tá, como você quiser. sem pegar no pé, você é livre. amanhã eu supero, é só um tempo pra eu te esquecer. claro, claro, você tem toda razão, exagerei mesmo, pirei. mas me perdoa, pelo menos. será que não tenho direito de errar? de uma segunda chance? você já se esqueceu da gente?, ah, desculpe, não, não, não vou mais insistir, pode ficar tranqüilo, não vou te ligar mais não, também tenho orgulho, devo ter algum valor, apesar de tudo, nem que seja só pra mim. você já ficou com outra? não vai responder não, é, seu sacana? é, eu sei, eu sei, desculpe. não desliga não, vai. tá. então tchau. até nunca mais. (...) alô? vai dizer que já me esqueceu?

-- publicado em Domingo, Outubro 24, 2004, às 9:31:06 PM

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massagem

não que fosse uma casa pobre. asseverava que não era a geometria das meninas, todas aplainadas, retocadas, depiladas, bronzeadas e educadas. e ainda deixariam nabokov estupefato. o problema foi o eletricista, tratante, muito trabalho a fazer e furou. o jeito foi abrir assim mesmo, sem as câmeras. sei, as garotas não saberiam o que (e principalmente quem) as aguardava na improvisada sala de visitas. e outro final de semana fechada, seria o fim dos negócios. agradável que desfilassem, calcinha e sutiã, para um público-surpresa, não era. entendo. se encontrassem um amigo, um primo, pior, um irmão? eu. e adorei vê-la, rendas, peles e timidez, ah, maninha, bem que eu a percebia mais caprichada, e agora? como seriam suas mãozinhas se sujeitando à aspereza do meu corpo? e aquela tatuagem no seu seio esquerdo, finalmente desvendaria o rabo do beija-flor? agarrando seu pulso, eu disse: ela! e seguimos. pelo seu olhar, suspeitei que esperava uma bronca. mas estávamos muito distantes disso.

-- publicado em Domingo, Maio 02, 2004, às 3:54:06 PM

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Espera

Ai, meu marido. Sumiu. Tão bom o coitado. O que, moleque? Não, não foi ao banheiro não. É, diria sim. E o ônibus chega em cinco minutos. Ai, meu marido, para onde você foi? Vamos pra plataforma, a gente espera lá. Ai, meu marido. Não chora, meu bem, mamãe vai cuidar de você.

-- publicado em Quarta-feira, Março 03, 2004, às 8:02:57 PM

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Guerra

E Eus disseram: haja sexo. E houve sexo. O terceiro dia do primeiro mês do tempo inicial era contemplado pelo olho curioso do odor de sêmens, até que uma criatura, mais potente que outras, asseverou ao perceber as pernas sedosas da mulher ao seu lado: esta é minha! E a que estava então em cima de um homem que julgava seu, diante de sua covardia, asseverando que o amor – criado também nesse instante – permite essas possessões, sentenciou, mantendo um olhar distante porém irrevogável, que afastaria as duas pernas apenas quando quisesse.

-- publicado em Sábado, Novembro 08, 2003, às 4:51:16 PM

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cesariana

porque eram peles, músculos, sangue, cintilância, olhos castanhos e beleza. e a beleza ofende. ou a barriga miasmada de nove meses. aliás, se vinham grávidas era pior: o ciúme. antes não, devassá-las, suspeita de quem? marido? namorado? e que linhagens de seios, que castas de vulvas! a beleza, claro. portando barrigas, era traído. honra recupera-se com faca. e cortava-as todas, mesmo desnecessário, a sugar os filhos das putas daquele mundo pastoso. e não suportava cicatrizes.

-- publicado em Sexta-feira, Setembro 26, 2003, às 10:58:47 AM

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Uma vez

Era um menino. E esse drama. A fatalidade, a inevitabilidade, a incongruência, a derrota, e ela. Tanto depois que não vê nos olhos atônitos a transparência quase empolgante e os seios que não desnudara aquele tempo certamente ririam desses dois peitos sugados e mortos, e dessas olheiras e dessa decepção, o teatro quase incisivo do suicídio, e então a encruzilhada. Era esse drama. E um menino.

-- publicado em Terça-feira, Agosto 19, 2003, às 10:57:05 AM

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Anotação

Inspirado num miniconto de Carla Dias
A Michele

Conheci esta mulher precisa. Não alcançava ser mais nem menos, a exatidão, e então era assim, finalmente simples, como se todas as costas, as pernas, devessem ter o tamanho que devem, pôr nem tirar, e que a simplicidade tem a métrica da justeza, o escopo de se encerrar em seu espaço, que não é senão o necessário. Então é que incompletude almeja a plenitude e se conseguir, o homem, a mulher, e a teia mais trançada que um beijo consegue tricotar.

-- publicado em Quinta-feira, Agosto 14, 2003, às 7:43:41 PM

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A revolta

Quase o senti carcomendo a vaga pausa entre dois desconcertos simultâneos, se a áurea de pastos cobrisse sua mudez com o charco das daninhas, o simulacro dessas auroras cobradas, ou o antidepressivo, e refletisse que venceria o salto entre sua mãe e seu pai, e quase entornei a desgraça encapsulada nos barbitúricos para curar a verdade lambuzada de boatos, e outrora, ciente da metamorfose, contou os tufos de batom e experimentou a astúcia dessa marca renhida, e quase. Empanturrar a lembrança prévia e entender que o clichê é necessário porque as palavras exatas dizem da maneira mais fácil e assim as repetirão, e quase é um turbilhão de impossibilidades até que tarde demais ou tanto faz.

-- publicado em Domingo, Agosto 10, 2003, às 11:19:48 AM

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Mágoa

Duvido que ele consiga alguém pra, você sabe, acordar todo dia quatro da matina, ter o cuidado que sempre tive e o safado despreza, nem pagou o último mês, malando, quatro horas, todo dia, segunda a sábado, capinava, colocava esterco, aparava, que mais que ele queria?, quatro horas não é fácil não, todo dia, segunda a sábado, o safado, filho da puta, que valor a gente tem nessa vida, uai?, mas outro como eu ele não encontra, malandro, só quer saber de ganhar, quatro horas, segunda a sábado, todo dia, e agora, o que é que eu vou fazer com o despertador que comprei depois que o galo Inácio morreu? Vigarista, me passou a perna. Quatro da matina. Todo dia.

-- publicado em Terça-feira, Julho 01, 2003, às 4:00:57 PM

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Para compreender samambaias

E pregos
Raciocinar semelhanças
Desbotar empecilhos e respirações
Naufragar ocos e gentilezas
E inutilidades
Orgulhar alçapões de papel
Lustrar lágrimas de árvores
Condenar pequenezas
E imensidões
Lamber deuses de açúcar
Rastejar esperanças
Abraçar sóis e muros
Alcançar destinos
Ou iniciar trajetos
Ribombo de sistros
E depois se calar
Feito sopro de beija-flor

-- publicado em Quarta-feira, Fevereiro 12, 2003, às 5:02:47 PM

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De mim. Setenta e poucos de lugar nenhum. De pai, mãe e demônios, irmãos.

Whisner Fraga é contista.

De mim o quê? Augúrio em meu nome, whisky. Tantos joãos e marias, romãs e romarias, bares e putarias.

Whisner Fraga e' mineiro de Ituiutaba.

De mim falem os outros.

Whisner Fraga e' engenheiro e estudante de Letras.



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